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Porque eu voto NÃO
Yara Fernandes
1. É uma hipocrisia desarmar o povo quando é esse mesmo povo que sofre a maior violência, principalmente vinda da polícia. São os pobres, os negros e os joves de bairros mais pobres que são vítimas da maior violência, que é a violência racista do Estado. Esse mesmo Estado sequer tenta resolver de fato o problema da violência, atacando sua raiz. Esse mesmo Estado está reprimindo greves e manifestações na defesa dos mais ricos. Esse mesmo Estado culpa sempre o povo por questões causadas pela própria ação do Estado (ou a falta dela). Contra o discurso hipócrita que culpa o povo, eu voto NÃO!
2. A violência não se resolve com a proibição da venda de armas. Só se resolve um problema atacando sua raiz. A raiz da violência não é o instrumento usado para praticá-la, mas os séculos de exploração capitalista que levaram a uma divisão social tão bruta que o desemprego, a miséria, o desespero, levam toda uma parcela da população a roubar, matar, ferir. Nas favelas, toda uma juventude sem perpectiva é seduzida a seguir uma carreira que pode levar a muitos crimes e à propria morte: o tráfico. Não vou tratar aqui de fatores psicológicos que também podem contribuir para que isso se desenvolva. Mas, se um distúrbio psíquico ocorre com um membro da elite, a família (discretamente) encaminha a pessoa a um tratamento com psicólogos ou psiquiatras. Na periferia, um stress ou trauma pode se desenvolver à vontade na cabeça das pessoas. De qualquer forma, a divisão de classes da sociedade é a raiz. Em defesa de um real ataque à raiz da violência, eu voto NÃO!
3. Não tenho arma, não concordo com o discurso de defesa individual contra o crime das ruas (em lugar de uma ação do Estado para reduzir e acabar com a violência), discurso este feito pela direita sisuda na propaganda do Não. Mas defendo um outro direito à autodefesa, o da autodefesa de uma classe (não individual), da classe trabalhadora que é explorada no país e no mundo. É justo defender a resistência dos iraquianos contra a ocupação ianque. É justo defender a Intifada Palestina. E é justo defender que os trabalhadores de qualquer país, inclusive do Brasil, se insurjam (inclusive armados), quando assim o quiserem, contra seus opressores, sejam eles da elite nacional ou de uma ação imperialista. Pelo direito à autodefesa da classe trabalhadora, eu voto NÃO!
4. A propaganda do sim (com a cara da Angélica e o discurso da rede Globo) diz "o voto é a sua arma". Definitivamente, o voto não é a arma do povo, como ficou claro depois dos escândalos de corrupção que banharam de lama o governo e o Congresso. Não é o deputado Fulano, ou o ministro de Tal, são as instituições que estão podres. Não dá para mudar o país e o mundo através do voto e o povo já está percebendo isso. O próprio referendo não decide nada, é só uma consulta para referendar algo que já foi decidido pelos engravatados do poder. Vou votar "Não" para marcar minha posição e ver quantas pessoas mais nesse país não vão cair no discurso da Globo, mas não porque minha arma seja o voto. Contra esse regime democrático-burguês e suas instituições falidas, eu voto NÃO!
Escrito por Yara às 10h51
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Da cama para a fama

Yara Fernandes
Alfredo Lopez, interpretado pelo brilhante Javier Câmara, vende enciclopédias de porta em porta na Espanha dos anos 70. Entretanto, a venda de enciclopédias em fascículos nas bancas destrói seu emprego. Só que, ao invés de demiti-lo, o chefe resolve desenvolver um novo ramo de negócios e incluí-lo em sua realização.
Alfredo e sua esposa Carmen são surpreendidos com o anúncio do novo projeto: a confecção de uma Enciclopédia Sexual Visual, composta de vários vídeos com casais de vários países em suas práticas sexuais cotidianas. Os vídeos seriam vendidos (com fins estritamente educativos!) apenas nos países escandinavos.
Na prática, o chefe quer que seus empregados rodem seus próprios filmes pornôs. O casal está em crise financeira e Carmen sonha ter um filho, ou seja, uma boca a mais para alimentar. Por isso, eles acabam aceitando a proposta.
As aventuras cômicas da dupla, o aprendizado das técnicas (as de câmera e as de atuação pornográfica), o súbito sucesso das dezenas de filmes que eles acabam produzindo, os sonhos de Alfredo que, influenciado por seu ídolo, Ingmar Bergman, planeja seu primeiro filme não pornográfico (uma tentativa de imitar O sétimo selo, de Bergman), tudo leva às telas uma deliciosa e inesperada comédia, uma quase pornochanchada.
Da cama para a Fama (Terremolinos 73), filme de estréia do diretor Pablo Berger parte de uma idéia inusitada e acaba cativando o público. O filme não deixa de fazer rir, mesmo quando remexe de leve as feridas da instituição familiar. Dessa forma, o cinema espanhol parece dizer ao mundo que é preciso humor inteligente diante das baboseiras enlatadas do Tio Sam.
Escrito por Yara às 00h59
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O Cinema e a máquina do tempo
Yara Fernandes
Eu acompanhei em primeira mão a exibição para a imprensa do documentário “Vlado: 30 anos depois”, que será lançado no dia 30 de setembro em algumas salas de cinema de São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre. Nele, o cineasta João Batista de Andrade conta a história do jornalista Vladimir Herzog, assassinado na prisão há 30 anos atrás, em outubro de 1975, durante o regime militar.
Logo no início do filme, João Batista diz que esse não é um documentário de muitas imagens, que não há registros filmados dessa parte da história ou imagens do próprio Herzog. Então, a notícia de que a maior parte do documentário será só de depoimentos me fez pensar que seria um filme chato.
Entretanto, a forma como foram feitas as entrevistas nos aproxima de tal forma daquela realidade, que ela nos envolve. Os depoentes são velhos amigos de João Batista, o que faz com que eles falem francamente de todos os seus sentimentos. A câmera está sempre muito próxima de seus rostos mareados.
O mais impressionante é que a ausência de imagens não impede que elas se formem na mente de quem assiste. Os depoimentos ricos em detalhes fazem o público enxergar e sentir a textura, o cheiro, os detalhes das cenas de tortura. Tudo vai se desenhando e transportando o espectador para aquela época. As entrevistas se completam, somando várias faces na mesma história.
Para fazer tudo isso, não foi preciso grandes somas em dinheiro, ou uma trilha sonora lacrimosa, ou um grande aparato tecnológico. A câmera principal, que ficava nas mãos do diretor, tem cerca de um palmo de comprimento. A música, que só surge no final, é tocada ao vivo por João Bosco e Aldir Blanc durante seus depoimentos, simbolizando um pouco do papel histórico de Herzog:
“...mas sei que uma dor assim pungente
não há de ser inutilmente...”
Escrito por Yara às 14h42
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Memória do Saqueio, um genocídio social
Yara Fernandes
O filme de Fernando Solanas, em cartaz no Brasil, investiga as razões e os responsáveis pela crise na qual a Argentina se afundou e que levou ao levante popular em dezembro de 2001. O “saqueio” do título não se refere aos saques em supermercados legitimamente realizados pela população Argentina jogada na miséria, mas ao saqueio do país, à desnacionalização completa da economia que teve início com a dívida externa e uma política suicida de juros e se completou com a implementação das privatizações e dos planos neoliberais na década de 90.
Memória do Saqueio – Um genocídio social é um documentário que desvenda a história Argentina e as causas da ruína do país. Mostra como foi possível que um país rico eliminasse sua classe média, elevasse as taxas de desemprego, miséria e indigência a níveis inacreditáveis, recebendo por tudo isso altos elogios do FMI.
Mais que isso, Solanas mostra, as heróicas manifestações do povo argentino, que em dezembro de 2001 toma as praças e ruas com panelas em punho, chamando a saída de todos os políticos, com um estrondoso “Que se vayan todos!”. Um povo que, diante da brutal repressão, não desistiu e respondeu “El pueblo no se vá”.
Capítulos de uma tragédia
O filme é dividido em capítulos temáticos. Primeiro, resgata a história da dívida externa Argentina e a ação de rapinagem promovida pelo ministro Cavallo, através de juros altíssimos. Depois, desvenda a desnacionalização do país, através das inúmeras privatizações exigidas pelo FMI e aplicadas com rigor pelo governo neo-peronista de Carlos Menem. Empresas das mais importantes e mundialmente reconhecidas, como a de Petróleo e a de Gás, foram vendidas a preço de banana e levaram milhares ao desemprego. Outras privatizações, como a concessão de obras públicas ou a de empresas de água e esgoto, deixaram a população sem serviços básicos. O filme mostra o sorriso com o qual Menem anuncia essa política de privatizações devastadora.
Outros capítulos dessa história aprofundaram a crise social, como a retirada de direitos trabalhistas e previdenciários, a falsa equiparação da moeda local ao dólar e o enorme desvio de verbas públicas para os bolsos dos políticos.
Não é mera coincidência que tudo isso soe familiar aos brasileiros. O filme não cita o Brasil, mas as mesmas reformas, privatizações, planos econômicos, endividamentos, escândalos de corrupção encaminhados pelos políticos argentinos são parte de um mesmo plano neoliberal aplicado em todo o mundo.
Há também um capítulo do filme que fala de Traição. Nele, Solanas resgata a forma como Menem fora eleito, com promessas populistas de beneficiar o povo. Dias depois, o presidente já esqueceria seus discursos.
Continua...
No filme, sente-se falta da história pós-dezembro de 2001, sobre a continuidade daquela revolução em curso que se instalou no país. Essa talvez seja uma resposta a ser dada nos próximos filmes, ainda não lançados no Brasil. Memória do Saqueio é o primeiro de uma série de quatro filmes que Solanas pretende fazer sobre a história recente da Argentina.
O segundo chama-se La Dignidade de los Nadies e está sendo exibido no Festival de Veneza em setembro. Os outros filmes que dão continuidade ao tema, La Tierra Sublevada e Argentina Latente, já estão sendo produzidos.
Entretanto, os novos filmes podem trazer à tona o lado reformista do diretor, que durante uma coletiva, defendeu o atual presidente argentino, Néstor Kirchner, dizendo que ele superou as expectativas. "Cerca de 85% das pessoas acompanham o que o governo está fazendo", disse o diretor. "Temos que considerar que ele está lidando com 15 anos de catástrofes constantes", completou.
Apesar de não encerrar a história, o filme mostra uma saída pelas ruas, afirmando claramente que não somos os derrotados e que nas lutas reside a vitória do povo sobre os saqueios imperialistas na América Latina e no mundo. O documentário, ou a própria história Argentina, parece dizer aos brasileiros e aos povos do mundo que a história não acabou, que ela está em nossas mãos.
Escrito por Yara às 16h39
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Oldboy e a Caixa de Pandora

Para Aristóteles, uma tragédia deve provocar a Katarsis, isto é, a purgação das emoções dos espectadores. Assistindo aos sofrimentos do herói, o público passa por um exorcismo coletivo, o que transforma a encenação dramática em um remédio para a alma, que ajuda o público a expelir suas próprias dores.
OldBoy é um exemplo dessa purgação de emoções, para sair do cinema perturbado, com as próprias dores remexidas. É um filme baseado no mangá japonês "Oldboy", criado por Minegishi Nobuaki e Tsuchiya Garon. É o segundo de uma trilogia sobre vingança do diretor sul-coreano Park Chanwook, iniciada com Sympathy for Mr. Vengeance, produção de 2002 ainda não disponível no Brasil.
Mais do que falar sobre vingança, o filme reflete sobre a memória, sobre uma ferida que se abre quando tomamos conhecimento de nossa própria realidade. Algo como tomar a pílula vermelha em Matrix e passar a conhecer uma realidade complicada e dolorida. Entram em confronto a tranqüilidade do não-saber, da alienação completa e feliz, com a dor e a responsabilidade que pesam em uma verdade.
Oh Dae-su é o anti-herói que inicia a trama embriagado, perde a festa de aniversário da filha, é preso por arrumar brigas na rua. Depois de liberado com a ajuda de um amigo, ocorre algo estranho ao seu cotidiano, que vai mudar sua história. Oh Dae-su é seqüestrado e trancado em um quarto com um banheiro e uma televisão por quinze anos, sem poder ver ou conversar com nenhum ser humano durante esse período. Ele se pergunta quem e por que o colocou ali. Sem muitas opções, Oh Dae-su inicia um treinamento solitário de artes marciais, para colocar em prática em sua futura vingança contra o inimigo invisível que o aprisionara.
Um dia, sem mais explicações, ele é libertado, com roupa e sapatos novos e algum dinheiro no bolso. Ele inicia uma busca por vingança, investigando os muitos possíveis inimigos que o queriam mal. O que ele mal imagina é que o que está vivendo é uma outra história de vingança, orquestrada contra ele.
A violência aqui, como em Tarantino, é um poema. As cenas mais brutais são acompanhadas de música clássica e servem para desnudar a alma humana. Em uma delas, ele arranca os dentes do responsável pelo local onde fora aprisionado, dando início à sua vingança. Entretanto, o que é mais trágico não está explícito. "Ria e o mundo rirá com você. Chore e você chorará sozinho". A frase é repetida pelo filme e é ilustrada muitas vezes pelo pessimismo e ambigüidade do sorriso amarelo de Oh Dae-su, que força um riso quando na verdade quer chorar.
Mas as explicações para os conflitos desse personagem são obscuras até que Oh Dae-su abre uma caixa entregue pelo inimigo que o aprisionou. Porém, a mitologia grega já avisava que abrir a caixa de Pandora seria o mesmo que libertar todos os males do mundo, todos os pecados, todas as verdades...
Temos a nossa
Tomar a pílula vermelha em Matrix ou abrir a temível caixa enviada pelo inimigo de Oh Dae-su são figuras perfeitas também para ilustrar o que vive o país hoje. Os escândalos de corrupção do governo Lula tiveram início assim, como a abertura da caixa de Pandora.
Sobre isso, é importante ressaltar duas coisas. Primeiro: Lula não é um deus, e faz como Pandora, que muito mais erra na tentativa hipócrita de querer ter o status de uma deusa. Lula sabia, porque não é um tolo, nem é santo! Segundo: É imprescindível lembrar-se de que, na mitologia, ao abrir sua caixa misteriosa, Pandora liberta, junto com todos os males do planeta, a esperança. No nosso caso, é preciso ver que a eleição de lula não foi vitória de esperança alguma. A tal da esperança ainda está na nossa mão. Já tomamos a pílula vermelha, resta reagir...

Escrito por Yara às 12h38
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Mãe

Sentir a dor física de trazer ao mundo um ser;
Abrir mão de parte da própria vida;
Ser responsável por alguém...completamente;
Apresentar esse complexo mundo a alguém que nunca o viu;
Formar, educar, cuidar, salvar, frear, repreender;
Ter que renunciar um dia a toda a responsabilidade, entregar a obra ao mundo;
Como se tudo isso não bastasse, ainda fazer tudo outra vez, viver duas vezes essas aventuras...
Obrigada por ter a coragem que eu talvez jamais tenha!
Escrito por Yara às 13h22
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A cidade do pecado

Dizem que Sin City é a mais perfeita transposição de uma história em quadrinhos para o cinema. O mundo sombrio de Frank Miller foi para as grandes telas sem romper sua linguagem, no suave e ao mesmo tempo sombrio preto e branco. Apenas alguns detalhes, em uma ou outra cena, aparecem em cor, como os lábios vermelhos de Gail ou os cabelos ruivos de Goldie.
O filme é baseado nas histórias "The Hard Good-Bye", "The Big Fat Kill" e "That Yellow Bastard", todas publicadas em graphic novel. O termo graphic novel foi criado por Will Eisner, ao apresentar sua obra Contrato com Deus (publicada no Brasil pela Editora Brasiliense) para seu editor. Na época, Eisner não queria que a publicação fosse catalogada como um comic book e a apresentou como sendo uma "graphic novel". Depois, isso se transformou numa definição de publicações com tratamento de qualidade, com um papel melhor, em formato diferenciado, como um livro ou uma revista.
Dirigido por Robert Rodriguez, Quentin Tarantino e Frank Miller, Sin City é a tradução fiel dos quadrinhos de Miller, que contam algumas histórias que se passam na cidade de Basin City. Lá convivem policiais desonestos, criminosos, mulheres sedutoras, políticos e padres que têm algo a esconder.
Marv é um presidiário em condicional que, apesar de sua aparência grotesca, recebe as atenções e os carinhos da bela Goldie (Jaime King), que passa uma noite com ele e amanhece morta em sua cama. Marv decide vingar o assassinato daquele anjo que lhe dera um instante de felicidade.
Dwight se envolve no assassinato de um policial na Cidade Velha, uma área onde são as prostitutas que fazem a lei e têm seu próprio esquema de segurança. A descoberta do cadáver poderá quebrar uma trégua que existe há anos entre a polícia e as mulheres daquele território.
John Hartigan talvez seja um dos últimos policiais honestos da cidade. Quando falta apenas uma hora para se aposentar, ele complica sua vida tentando salvar uma jovem de 11 anos de um pedófilo e filho de senador.
Quentin Tarantino aparece como “diretor especialmente convidado”. Robert Rodriguez compôs a trilha sonora de Kill Bill 2 pelo preço simbólico de US$ 1. Retribuindo o gesto, Tarantino dirigiu um dos segmentos de Sin City pela mesma quantia.
Sin City tinha tudo para se transformar em um blockbuster policial para render milhões à indústria cinematográfica. Miller sabia disso e não quis vender os direitos. Rodriguez foi na contramão das exigências da indústria cinematográfica e ousou ser fiel às características plásticas da obra de Miller.
Não é só o preto e branco das cenas que remete o espectador aos quadrinhos. Houve um cuidado em refazer as mesmas cenas, em manter as características essenciais dos personagens, mostrar os mesmos planos, com o mesmo clima. Em várias cenas temos a sensação de estar lendo os quadrinhos.
Porém não é só na estética que o filme e os quadrinhos de Miller são contestadores. As histórias desnudam a podridão das instituições, desde a corrupção e violência cometidas pela polícia cotidianamente, passando pelo péssimo caráter dos políticos, como é o caso do senador Roark, e pela imagem de uma igreja cujos altos membros cometem pedofilia e assassinato. É uma clara denúncia da estrutura suja de uma sociedade, onde a justiça acoberta os que têm poder político e econômico, onde a mentira se transforma em verdade conforme quem a profere. É um soco no estômago, é um tiro no caos estabelecido, não em uma cidade, mas em muitas que conhecemos de perto. Com cenas de esquartejamento, canibalismo, assassinatos, pedofilia, tudo poderia fazer deste um filme sensacionalista e violento. Entretanto, talvez pela narrativa, talvez pelo preto e branco, tudo se torna muito sutil, tudo é incrivelmente belo, poético, sedutor...

Escrito por Yara às 18h46
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Saltimbancos como somos nós

“Era uma vez (e é ainda)/ certo país/
onde os animais eram tratados como bichos.
São ainda, são ainda.
Tinha um patrão (tem ainda) espertalhão
que nunca trabalhava, então achava a vida linda
E acha ainda!”
Assim começava essa história... Os Saltimbancos não é um disco só para crianças. É algo que está no mágico universo infantil, no qual os animais falam, mas também está no universo da arte, no qual as metáforas têm o poder de dizer o que não se diz. O álbum nasceu em 1977, em plena ditadura militar, sob a autoria de Chico Buarque e com as interpretações brilhantes de Miúcha, Nara Leão e dois integrantes do MPB4.
É que um belo dia um jumento toma consciência de si enquanto ser explorado. E na canção em que ele se apresenta aos ouvintes, ele responde “o pão, a farinha, feijão, carne seca, limão, mexerica, mamão, melancia, areia, cimento, o tijolo, a pedreira, quem é que carrega? I-ó!”.
Eis que ele resolve então mudar sua própria vida e parte rumo à cidade para cantar e conquistar sua liberdade. Para isso, entretanto, ele vai encontrando em seu caminho outros animais que formarão o grupo de animais artistas.
O primeiro é o cachorro. Esse é um típico soldado raso, muito menos revoltado que o jumento, acostumado a receber ordens e a obedecer (algo que ele chama de lealdade ou fidelidade). Apesar disso, ele segue o jumento, trocando o patrão pelo líder que representa a figura do jumento.
A galinha, por sua vez, é outra explorada. Sua canção de apresentação pessoal inevitavelmente nos dá a idéia de uma fábrica, com as diversas galinhas produzindo ovos em série para o lucro do patrão. Porém sua história é mais complicada: ela não consegue mais botar ovos e, por isso, tornou-se obsoleta na granja. O patrão, na música, responde às reivindicações das galinhas com um sonoro “tu ficas na granja em forma de canja!”.
A gata surge de uma classe média mais abastada. Não é a figura do explorado, mas suas mordomias limitam suas liberdades. Ela não tem direito de sair de casa, de cantar à luz da lua, com os gatos de rua. Por romper com as regras e reivindicar sua liberdade, a gata é expulsa de casa. Liberdade essa que ela invejava nos outros gatos: “Mas é duro ficar na sua quando à luz da lua/ tantos gatos pela rua/ toda noite vão cantando assim.../ Nós gatos já nascemos pobres,/ porém já nascemos livres...”.
E esses quatro animais resolvem ir à cidade para cantarem juntos. Porém, a história reserva a eles algumas dificuldades. Primeiro, eles reencontram seus ex-patrões na “Pousada do Bom Barão”, o que provoca uma batalha entre os dois grupos. A batalha faz os bichos concluírem que “um bicho só é só um bicho. Mas todos juntos somos fortes!”. Ainda depois da vitória, há o episódio do esconde-esconde, no qual eles têm que se esconder para atacar novamente. O episódio em forma de música nos remete tanto àquela velha brincadeira infantil, como também ao contexto da ditadura militar e da perseguição aos opositores e aos artistas.
Tudo isso, entretanto, é contado ludicamente, com canções infantis e de uma beleza singela. As crianças se divertem, a história é mágica. As imagens que os personagens fazem da sua cidade ideal em muito se parecem com a imaginação fértil da criança: cidades cheias de minhocas (para a galinha) ou cheia de postes (no caso do cachorro).
Realmente difícil de censurar...
Escrito por Yara às 18h27
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La Fée Verte
Isso já era depois de um vinho chileno e de um terrível argentino... Sensível diferença. Quando ainda é possível perceber a coisa vai muito bem. O fato é que a Fada Verde, filha da alucinógena Arthemisian absynthum e de um conjunto de ervas, invadiu a mesa e perfumou a sala.
Isso porque o aroma verde do absinto é tão mágico quanto seu sabor. Entretanto, para se aproximar um pouco da compreensão das geometrias multidimensionais de Picasso, das distorções de Van Gogh e dos heterônimos de Fernando Pessoa, é preciso mais que inalar o herbáceo destilado, é preciso mais que sorver pequenos goles...
Ao descer queimando a garganta, diferentemente da popular aguardente, a Artemísia espalha e impregna seu sabor. Pouco depois, o fogo da garganta já não passa de um calor generalizado no corpo.
É aí que nascem as árvores de Novalgina, os tangos descompassados, as viagens pelo universo, os neutrinos, as stríperes evangélicas virtuais... Uns dizem que não sentem nada, outros sentem tudo...

Escrito por Yara às 12h34
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Música interior

Minha alma está repleta de música! Passei o dia todo com notas zunindo em meus ouvidos. Violinos, bandoneons, violões... Tudo tem a cor púrpura desses tangos!
De fato, chego a não estar neste lugar, em frente ao computador. A atmosfera é outra, é sonho. O portal é o som.
Gosto de “palavrar”, mas este não é o momento das palavras. Piazzola me toca de maneira não-verbal e basta!
Escrito por Yara às 18h11
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A fonte da juventude

Ontem fui assistir Em Busca da Terra do Nunca, filme que fala sobre a vida do criador de Peter Pan. Um filme sobretudo belo nas imagens e nas mensagens. Pode até ser previsível, ou mesmo dramático e romantizado demais para o meu gosto. Mas traz à tona alguns sentimentos necessários.
Lembrei-me das primeiras linhas de O pequeno príncipe, quando Saint-Exupèry recomenda a leitura do livro principalmente às “pessoas grandes”. O livro é para os adultos, mesmo que as crianças possam lê-lo e entendê-lo melhor que os adultos.
Na verdade, o que o filme fala, o que o livro fala e o que quero falar é sobre esta juventude que existe dentro da gente. As crianças que fomos e que nunca abandonaram nosso espírito muitas vezes nos rondam o cotidiano, despertam e brincam na nossa vida adulta.
Tais momentos de despertar provocam ações como um brigadeiro de colher comido lambrecadamente, a sensação suja e livre de andar descalço e sentar no chão, um desenho primitivamente rabiscado numa folha em branco durante uma séria reunião, um riso acidentalmente honesto diante de um desenho animado, a vontade (às vezes posta em prática) de comprar um bicho de pelúcia, uma boneca, uns adesivos coloridos, ou qualquer coisa aparentemente “infantil”.

Por isso, às vezes, ao passar em frente a uma loja de brinquedos, a gente não resiste e entra, fica olhando e mexendo com os novos brinquedos, aqueles que não existiam na nossa época. Ou adoramos rever aqueles que sobreviveram, como o Lego ou a Moranguinho. Também por causa dessa criança que desperta em nós, às vezes a gente chora muito, às vezes a gente só quer um colo quentinho e a vida parece grande demais para se compreender.
Por causa dessa criança que pulula em momentos aleatórios, às vezes, a gente ainda se permite ser feliz, esquece das responsabilidades da vida adulta e resolve se divertir. Será também um pouco de medo de envelhecer? Será desejo de liberdade? Quem não quer achar a Terra do Nunca?
Bem, a Terra do Nunca está bem aqui, nesses dias infantis em que a gente só quer ser livre! A luta entre o Capitão Gancho e o Peter Pan é a nossa luta cotidiana entre as responsabilidades e seriedades de adulto e a criança voadora que faz estripulia na nossa alma.

Escrito por Yara às 18h37
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De repente?

“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma...”
(Vinícius de Morais, Soneto da Separação)
De repente o pranto do Carnaval ferido desaguou. Não que ele já não estivesse triste... Depois de tantos anos sofrendo calado, em 2005 o Carnaval não terminou bêbado com um sorriso falso e amarelo como se tudo estivesse bem.
O Carnaval nasceu como uma festa popular, com gritos, fantasias e música nas ruas. Na rua estava o povo e estava o Carnaval. Ainda que o pão fosse caro e a liberdade pequena, como disse o Ferreira Gullar, lá estava na rua um curto momento de liberdade.
Aos poucos, muita grana, pouca máscara, pouca roupa, muita mídia... tomaram conta deste filho popular. Ficou então preso nos salões, nos camarotes, nos abadás caríssimos. O povo? Ficou atrás dos cordões de segurança, foi perdendo seu espaço para as modelos siliconadas.
Em 2005 isso já acontecia há tempos. Não era novidade que o Carnaval fora comprado, empacotado e posto na prateleira. Mas sempre dava um ar de coisa alegre, sempre a embriaguez além de consolar trazia aquele êxtase falso, aquela alegria artificial.
Em 2005, a novidade foi que o Carnaval terminou em pranto. A velha guarda da Portela foi trancada para fora da festa, impedida de desfilar por ordem do presidente da escola. As musas de verão passaram em destaque e os mais velhos, fundadores da escola, que desfilaram a vida toda, foram barrados para que o tempo não estourasse mais.

Este não é somente um tempo em que a juventude não respeita os mais velhos. É uma época em que tudo é mercadoria e os que estão do lado de dentro só estão porque podem pagar. E os que estão do lado de fora do baile são, na verdade, as multidões que sustentam o luxo dos que riem e se embriagam na festa.
Não foi “de repente” que esta separação se deu. Ela é histórica. O pranto é repentino, mas a dor é antiga.
Porém, o que a elite se esquece é que a multidão do lado de fora é maioria! Pode, quando quiser, derrubar os muros desta festa, ultrapassar a portaria, tomar para si esta alegria... “...de repente, não mais que de repente”!

Escrito por Yara às 19h17
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Uma Homenagem à Arte de Atuar

Nossas absurdas realidades inventadas, nossos devaneios, as construções que erguemos no ar! Todas as alegrias e tristezas que imaginamos, todos os fatos que não aconteceram, que só vivem no imaginário, que nascem dos sonhos... Tudo que invade nossa alma tentando passar por cima do árido mundo real...
Essas mágicas sensações, esses sentidos atordoantes, parecem tão reais quanto o real. Mas como prová-los a outrem?
Mostrar para o restante do mundo esta realidade criada que existe dentro de cada um de nós é a arte dos artistas. Apresentar isso em um palco é reviver as aventuras sonhadas diante de mil olhos! Que dizer da arte, do artista e do ator? Que definição mais perfeita do que MAGIA?
Escrito por Yara às 02h19
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"Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo..." (Antoine de Saint-Exupèry)
Escrito por Yara às 14h22
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Os sonhadores de ontem e hoje em cartaz

As manifestações estudantis do final dos anos 60 surgem em dois filmes magníficos atualmente em cartaz em São Paulo: Edukators e Os Sonhadores. No primeiro, o movimento é recordação, é referência para uma juventude que hoje carece de referenciais políticos e, ao mesmo tempo, tem ideais revolucionários. No segundo filme, maio de 68 está vivo, em cores vibrantes, presente na vida de uma juventude talvez tão confusa politicamente quanto a de hoje.
Os sonhadores
As manifestações e a efervescência cultural de Paris em 1968 são o ambiente de uma trama cheia de música, política, cinema e sexo. O filme de Bernardo Bertolucci mostra o jovem americano Mathew, que está em Paris estudando e torna-se assíduo freqüentador da Cinématheque. Sua paixão pelo cinema o aproxima dos irmãos gêmeos Isabelle e Theo, também cinéfilos. Com os pais do casal de irmãos viajando, Mathew vai mergulhar na atmosfera intensa do apartamento deles e iniciar um relacionamento pautado nas características que os aproximam, nas discussões sobre política, cinema e música.
Mathew percebe a relação incestuosa entre Isabelle e Theo. Acaba se envolvendo e se apaixonando pelo casal.
Há muitas referências a filmes que marcaram a história do cinema. A presença de cenas trazidas diretamente dos clássicos se mistura à reconstituição, pelos três personagens, de trechos marcantes de alguns filmes. Exemplo disso é o teste pelo qual Mathew passa para iniciar a amizade com os gêmeos: os três recriam a cena de Godard em “Band à part” (1964), na qual eles correm desenfreadamente pelo Museu do Louvre. O objetivo do trio é quebrar o recorde das personagens godardianas.
Além da beleza visual, da iluminação, das cores e enquadramentos que tornam o filme uma atmosfera que envolve o espectador, há ainda a mais que brilhante trilha sonora, que mescla Hendrix, Doors, Janis Joplin, Greatfull Dead, Eric Clapton, Edith Piaf, entre outros.
Edukators

O filme alemão, por sua vez, olha com saudades para os anos 60, para a efervescência da atmosfera de Os Sonhadores. Os três personagens possuem um forte sentimento anti-capitalista e buscam meios de fazer uma revolução, de mudar o mundo. Porém, esbarram na falta de uma referência política, e não têm métodos revolucionários concretos com os quais colocar em prática sua ira contra o capital. Estão descontentes com os movimentos anti-globalização atuais e sua ineficiência. Também não estão satisfeitos com suas próprias ações.
Estas consistem em invadir mansões, não roubar nada, apenas desarrumar todos os móveis de lugar, rearranjando-os de maneira bizarra. No final, deixam um bilhete com mensagens como: “Seus dias de fartura estão contados” ou “Você tem dinheiro demais”. E assinam “Os educadores”.
Através de um seqüestro quase que acidental, os três iniciam uma convivência com um velho magnata e capitalista, numa casa nas montanhas que é o improvisado cativeiro. Surge então, o conflito entre as gerações, a de hoje, que carece de direção para seus ideais revolucionários, e a do final dos anos 60, cuja maioria hoje está adaptada ao sistema. O amor livre de antes se confronta com o ciúme monogâmico de hoje, mostrando uma juventude hoje com costumes mais conservadores. A adaptação dos ex-revolucionários de ontem se confronta com os revolucionários de hoje.
Ontem e hoje
Os dois filmes se completam, mas ao mesmo tempo não se encerram. Os conflitos da juventude de ontem e hoje que querem transformar o mundo não se resolvem. Porém, não esbarram em pessimismos ou pacifismos. Ao contrário, os filmes mostram que a conclusão de ambos os dilemas é que os desafios persistem, os conflitos de classe permanecem e que a luta é necessária.
Escrito por Yara às 09h50
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